Trabalhadores mais jovens recorrem cada vez mais à inteligência artificial em vez de buscar orientação de colegas experientes, enquanto dados do Stanford Digital Economy Lab mostram que profissionais de 22 a 25 anos já enfrentam queda relativa de cerca de 13% no emprego em ocupações mais expostas à IA. Para a cientista comportamental Gaya Machado, especialista em comunicação e comportamento, o desafio contemporâneo não é puramente tecnológico, mas profundamente relacional. "A tecnologia acelera resultados, mas não substitui a construção do conhecimento entre pessoas", afirma.
A inteligência artificial promete aumentar a produtividade, acelerar processos e democratizar o acesso à informação. No entanto, dentro das organizações, um efeito colateral menos visível começa a desestabilizar as equipes: quanto mais a tecnologia passa a ocupar o espaço das interações entre diferentes gerações, maior tende a ser o desgaste no ambiente corporativo.
O custo do isolamento geracional e o risco de burnout
O relatório State of Generations at Work, da consultoria global O.C. Tanner, revela que conflitos de comunicação e barreiras de colaboração entre faixas etárias elevam em seis vezes as chances de burnout entre os funcionários. Em contrapartida, apenas 26% dos profissionais afirmam vivenciar a chamada "sinergia geracional" — um ecossistema em que diferentes gerações aprendem mutuamente e operam de forma integrada. Quando essa sinergia é cultivada, as chances de baixa rotatividade triplicam, acompanhadas por saltos expressivos em inovação e confiança.
A pesquisa identifica ainda uma guinada importante nos hábitos dos profissionais em início de carreira. Na hora de solucionar dúvidas, cresce exponencialmente o reflexo de consultar motores de inteligência artificial como primeira linha de suporte, em detrimento do diálogo com especialistas humanos. Segundo o levantamento, 38% dos trabalhadores relatam que o incentivo corporativo ao uso da IA reduziu a busca por orientação sênior, enquanto 44% apontam que a tecnologia tornou mais complexa a cooperação com colegas de outras gerações. Entre Millennials e a Geração Z, essa tendência se manifesta de forma ainda mais acentuada.
O impacto no desenvolvimento de repertório e na empregabilidade
Ao analisar esse fenômeno sob a ótica da psicologia cognitiva, Gaya Machado alerta para os prejuízos de longo prazo na formação profissional. "A inteligência artificial responde perguntas com muita velocidade, mas a experiência continua sendo construída na relação entre pessoas. Quando o profissional substitui sistematicamente essa troca pela tecnologia, ele ganha agilidade para resolver tarefas, mas perde acesso ao contexto, aos critérios e ao repertório que normalmente só aparecem na convivência com quem já viveu situações semelhantes", explica. Essa ruptura na transmissão de conhecimento tácito reverbera diretamente na empregabilidade dos mais jovens. Os dados do Stanford Digital Economy Lab indicam que trabalhadores entre 22 e 25 anos em funções altamente expostas à IA generativa registraram retração relativa de cerca de 13% no emprego desde o fim de 2022. Em contrapartida, profissionais seniores nas mesmas ocupações mantiveram estabilidade ou ampliaram sua participação, amparados justamente pelo acúmulo de experiência e julgamento crítico.
A valorização do julgamento humano frente à automação
Para a cientista comportamental, o cenário atual não configura uma disputa geracional, mas sim uma reavaliação de competências. "Existe uma tendência de imaginar que dominar ferramentas será suficiente para acelerar a carreira. Mas, justamente num cenário em que a IA executa cada vez mais tarefas técnicas, ganha valor aquilo que ela ainda não produz sozinha: julgamento, leitura de contexto, capacidade de negociar, interpretar situações ambíguas e tomar decisões com base na experiência", pontua.
O próprio relatório da O.C. Tanner corrobora essa visão ao demonstrar que empresas focadas em sinergia geracional reduzem atritos, fortalecem o pertencimento e posicionam a tecnologia como suporte, e não como substituta das conexões humanas. Nesses espaços, os colaboradores têm quatro vezes mais propensão a buscar auxílio em outras gerações, oxigenando a capacidade de adaptação organizacional.
"O conhecimento técnico pode ser aprendido rapidamente e até automatizado. O que continua sendo desenvolvido entre pessoas é a capacidade de interpretar situações complexas, lidar com diferentes perspectivas e construir confiança. Empresas que conseguem preservar esses espaços de aprendizagem entre gerações transformam a tecnologia em vantagem competitiva, em vez de permitir que ela aprofunde distâncias dentro das equipes", conclui Gaya Machado.