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Data de disparo a definir

Alta de afastamentos por saúde mental, necessidade de segurança psicológica e colaboração, coloca clubes de leitura no radar das empresas

Enquanto a nova NR-1 amplia a atenção aos riscos psicossociais, especialistas apontam a saúde social como dimensão ainda pouco explorada na prevenção do adoecimento no trabalho

Com o recorde de afastamentos por transtornos mentais e a nova NR-1 exigindo gestão de riscos psicossociais, empresas passam a olhar para a saúde social — a qualidade das conexões entre as pessoas — e clubes de leitura entram no radar como iniciativa coletiva de prevenção.

O aumento dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil tem levado empresas a adotar iniciativas coletivas voltadas à saúde no trabalho. Em 2025, o INSS concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais, alta de 15,6% em relação ao ano anterior e segundo recorde consecutivo da série histórica.

O movimento ocorre em paralelo à atualização da NR-1, que passou a exigir das organizações a identificação, avaliação e gestão de riscos psicossociais. Com isso, empresas têm ampliado o foco para além de programas individuais de bem-estar, incorporando ações de caráter coletivo.

Entre essas iniciativas, ganham espaço práticas associadas ao conceito de saúde social, entendido como a dimensão do bem-estar relacionada à qualidade das conexões humanas. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 871 mil mortes por ano estejam associadas ao isolamento social.

Para a cientista comportamental Gaya Machado, a distinção entre saúde mental e saúde social ainda não é plenamente incorporada pelas organizações. “A maior parte das empresas concentra esforços na resposta ao adoecimento, enquanto a prevenção depende da qualidade das relações no ambiente de trabalho. Nesse contexto, clubes de leitura são uma das iniciativas voltadas ao fortalecimento de vínculos”, afirma.

Pesquisas do Centre for Research into Reading, Literature and Society (CRILS), da Universidade de Liverpool, indicam melhora em indicadores de saúde mental entre participantes de grupos de leitura com diagnóstico de depressão ao longo de 12 meses. Revisões adicionais apontam associação entre leitura compartilhada e redução de sintomas depressivos, além de ganhos em bem-estar e qualidade de vida.

Além do fortalecimento dos vínculos sociais, os clubes de leitura também estão associados ao desenvolvimento de competências cognitivas e socioemocionais relevantes para o ambiente de trabalho. Dados da OCDE mostram que 26% dos adultos avaliados em 31 países apresentam níveis de letramento iguais ou inferiores ao nível 1, com capacidade limitada para compreender textos mais complexos. Nesse contexto, a leitura regular contribui para estimular funções como atenção, memória, linguagem e raciocínio, segundo o Max Planck Institute for Psycholinguistics.

Já pesquisas analisadas pela American Psychological Association (APA) indicam que a leitura de ficção pode favorecer o desenvolvimento da empatia e da compreensão de diferentes perspectivas. “A leitura ajuda as pessoas a interpretar informações com mais profundidade, formular melhores perguntas e exercer pensamento crítico. Em grupos de leitura, esse processo ainda é potencializado pela troca de percepções e experiências entre os participantes”, afirma Gaya. No campo organizacional, dados do relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, indicam queda do engajamento global para 20%, o menor nível desde 2020, com impacto estimado em US$ 10 trilhões em produtividade. O levantamento também aponta aumento de sentimentos de solidão, tristeza e raiva entre líderes em comparação a outros profissionais.

Nesse cenário, iniciativas estruturadas de interação podem contribuir para o fortalecimento de vínculos e para a percepção de pertencimento nas organizações. O Edelman Trust Barometer 2026, um relatório global anual que mede níveis de confiança em instituições e expectativas em relação a empresas, indica que 75% dos entrevistados atribuem aos empregadores a responsabilidade de promover conexões entre grupos e 82% consideram eficaz a construção de uma identidade compartilhada no ambiente de trabalho.

Com a entrada dos riscos psicossociais na NR-1, ações voltadas às relações interpessoais passam a integrar também o campo da conformidade regulatória. A exigência de gestão desses riscos tende a ampliar a adoção de intervenções coletivas com base em evidências. Nesse contexto, clubes de leitura corporativos passam a ser considerados por parte das empresas como uma das estratégias possíveis de fortalecimento da saúde social. A avaliação é de que iniciativas desse tipo podem contribuir para a prevenção de riscos psicossociais e para a melhoria do ambiente organizacional.

Para Gaya Machado, a efetividade dessas práticas depende de um desenho adequado. Ela afirma: “A participação voluntária, a diversidade de curadoria e a ausência de foco em performance são fatores determinantes para que a iniciativa cumpra seu papel no ambiente corporativo”.

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