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Data de disparo a definir

Clubes de leitura transformam páginas em conexões humanas e podem ser aliados contra a solidão

Especialista aponta que encontros literários criam vínculos, fortalecem o sentimento de pertencimento e ajudam a construir relações em uma sociedade cada vez mais marcada pelo isolamento social

Uma em cada seis pessoas no mundo enfrenta a solidão, segundo a OMS. A cientista comportamental Gaya Machado explica como clubes de leitura funcionam como estrutura simples e eficaz para criar vínculos duradouros e devolver o hábito da leitura a um país onde os não leitores já superam os leitores.

Em um mundo onde a solidão se tornou uma preocupação global de saúde pública, iniciativas que promovem conexão humana ganham cada vez mais relevância. A cientista comportamental Gaya Machado destaca que atividades coletivas aparentemente simples, como clubes de leitura, podem funcionar como uma ferramenta estruturada para criar vínculos, estimular conversas e fortalecer o sentimento de pertencimento.

O tema ganha ainda mais força diante do avanço da chamada “epidemia de solidão”. Segundo a Comissão de Conexão Social da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgada em 2025, uma em cada seis pessoas no mundo enfrenta a solidão, condição associada a mais de 871 mil mortes por ano. A entidade também aponta que pessoas solitárias têm o dobro de risco de desenvolver depressão, além de relacionar a falta de conexão social ao aumento de riscos para doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral e declínio cognitivo.

Para Gaya, o desafio da sociedade atual é criar espaços de convivência capazes de transformar encontros pontuais em relações duradouras. É nesse contexto que os clubes de leitura aparecem como uma alternativa: uma atividade que une interesse comum, frequência de encontros e abertura para conversas, três elementos fundamentais para a construção de amizades.

“Ler parece ser um hábito solitário, mas quando compartilhamos uma história e trocamos percepções, criamos uma experiência coletiva. O livro funciona como uma ponte para aproximar pessoas”, explica Gaya.

Além do aspecto social, estudos indicam que compartilhar experiências literárias pode gerar respostas físicas relacionadas ao vínculo coletivo. Uma pesquisa da equipe do antropólogo Robin Dunbar, da Universidade de Oxford, publicada na Royal Society Open Science, identificou que assistir a narrativas emocionantes em grupo pode aumentar o limiar de dor dos participantes, um indicador associado à liberação de endorfinas e ao fortalecimento do sentimento de conexão, mecanismo semelhante ao observado em atividades coletivas como risadas e cantos compartilhados.

“O vínculo não acontece apenas pela conversa racional sobre o livro. Existe uma experiência emocional compartilhada, e isso aproxima as pessoas. Quando um grupo se envolve com uma história, ele cria memórias em conjunto”, afirma Gaya.

Pesquisas recentes também reforçam a relação entre leitura compartilhada e bem-estar. Um levantamento da The Reading Agency, no Reino Unido, realizado com cerca de 4 mil adultos, apontou que leitores regulares relatam maior senso de pertencimento e menores níveis de solidão em comparação com pessoas que não possuem o hábito da leitura. Já uma pesquisa australiana publicada em 2024 analisou grupos de leitura compartilhada e identificou relatos de melhora no bem-estar e aprofundamento das relações entre participantes.

Uma revisão científica publicada em 2025 na revista Frontiers in Psychology também apontou que práticas de leitura compartilhada podem contribuir para melhorias em humor, bem-estar e conexão social. Os pesquisadores ressaltam, porém, que ainda são necessários estudos maiores para medir esses impactos em diferentes populações.

No Brasil, a iniciativa também dialoga com um cenário de afastamento dos livros. De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, 53% da população brasileira se declarou não leitora em 2024, superando pela primeira vez o número de leitores. Para Gaya, criar espaços coletivos de leitura pode ser uma forma de aproximar novamente as pessoas dos livros.

“A leitura ganha uma nova dimensão quando deixa de ser uma atividade isolada e passa a ser uma experiência de troca. Muitas vezes, o que mantém alguém conectado a um livro não é apenas a história, mas o compromisso de conversar sobre ela com outras pessoas”, comenta Gaya.

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