THE FLUX HOUSE

Data de disparo a definir

Sósias digitais transformam o futuro do trabalho, mas mostram o limite da inteligência artificial

Gartner aponta avatar digital como tendência do futuro do trabalho e estudo de Stanford mostra que réplicas de IA conseguem reproduzir grande parte das atitudes humanas, mas falham no que diferencia profissionais excelentes: julgamento, contexto e tomada de decisão estratégica

A Gartner aponta as réplicas digitais de funcionários como tendência do futuro do trabalho, e um estudo de Stanford mostra que agentes de IA reproduzem 85% das respostas humanas — mas caem para 66% em decisões estratégicas. O limite, diz Gaya Machado, é o julgamento.

A inteligência artificial já consegue criar versões digitais de profissionais capazes de reproduzir parte significativa de suas respostas, estilos de comunicação e padrões de comportamento. Mas estudos recentes apontam que o avanço tecnológico revela um limite importante: empresas podem clonar o desempenho visível de um funcionário, mas ainda não conseguem replicar completamente o julgamento humano que sustenta decisões complexas.

A tendência dos chamados digital doppelgangers, réplicas digitais de funcionários, foi apontada pela Gartner entre os movimentos que devem transformar o futuro do trabalho em 2026. A consultoria recomenda que organizações desenvolvam novas políticas de governança de IA para lidar com questões como uso da imagem, voz, dados e remuneração de profissionais que tenham suas características replicadas digitalmente.

Para a cientista comportamental Gaya Machado, o principal desafio não é tecnológico, mas comportamental. “Quando uma empresa cria uma réplica de um profissional, ela normalmente copia o que ele entrega, mas não o que sustenta seu desempenho. O resultado aparece nos padrões, mas a excelência está na interpretação, no contexto e nas escolhas feitas diante de situações inesperadas”, afirma.

IA reproduz respostas, mas encontra limites no julgamento estratégico

Um estudo conduzido por pesquisadores de Stanford e Google DeepMind demonstrou o potencial e, ao mesmo tempo, as limitações das réplicas digitais. Agentes de IA treinados a partir de entrevistas com 1.052 pessoas conseguiram reproduzir respostas individuais com cerca de 85% de precisão em comparação com as próprias respostas dos participantes duas semanas depois. Em traços de personalidade, o índice chegou a aproximadamente 80%.

No entanto, quando o desafio envolvia decisões estratégicas, a precisão caiu para 66%. Para Gaya, o resultado evidencia a diferença entre repetir padrões e tomar decisões. “O profissional de alto desempenho não é apenas alguém que responde corretamente. Ele entende o ambiente, identifica sinais que não são óbvios, avalia riscos e sabe quando uma regra precisa ser quebrada. Esse tipo de julgamento depende de contexto e experiência”, explica.

O estudo mostra que, embora a IA consiga reproduzir comportamentos, ainda existe uma camada humana difícil de automatizar: a capacidade de interpretar situações inéditas e assumir responsabilidade pelas escolhas.

Quando ser referência significa ser replicado

A criação de sósias digitais também traz um novo dilema para a gestão de pessoas. Se os melhores profissionais podem ter seu desempenho transformado em um ativo digital da empresa, surge uma questão: qual será o incentivo para compartilhar conhecimento e desenvolver novas habilidades?

Segundo Gaya, organizações precisam considerar o impacto dessa percepção sobre a relação entre empresa e colaboradores. “Quando uma pessoa sente que sua expertise, forma de pensar e sua reputação podem ser capturadas sem clareza sobre uso e reconhecimento, isso afeta a confiança. O efeito pode ser justamente o contrário do esperado, em vez de compartilhar conhecimento, profissionais passam a protegê-lo”, destaca.

Para a especialista, a discussão envolve também a chamada propriedade psicológica, o sentimento que as pessoas desenvolvem sobre aquilo que constroem, como sua trajetória profissional, sua voz e sua reputação. “Uma réplica digital não representa apenas dados, mas aspectos da identidade profissional de alguém, e isso precisa ser tratado com transparência e responsabilidade”.

Tecnologia avança mais rápido que a regulamentação

O crescimento dos sósias digitais amplia o debate sobre regras para uso de inteligência artificial no ambiente de trabalho. Na União Europeia, o AI Act passou a exigir, desde 2 de agosto de 2026, que sistemas de IA se identifiquem como inteligência artificial e que conteúdos sintéticos sejam sinalizados.

No Brasil, o PL 2338, conhecido como Marco Legal da IA, foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e segue em tramitação na Câmara dos Deputados. Organizações de direitos civis apontam que salvaguardas trabalhistas foram retiradas durante a tramitação do texto, deixando lacunas sobre temas como a proteção de profissionais replicados por IA.

À medida que empresas passam a experimentar réplicas digitais de seus talentos, o desafio deixa de ser apenas tecnológico e passa a envolver identidade, confiança e cultura organizacional. “A inteligência artificial pode reproduzir padrões de comportamento, mas o valor de um profissional continua ligado à capacidade de interpretar o mundo, tomar decisões e atribuir significado às situações”, conclui Gaya.

Sósias digitaisGovernança de inteligência artificialJulgamento e tomada de decisãoFuturo do trabalho

Leia também

Solicitar entrevista com Gaya Machado

Respondemos em até 24 horas em dias úteis.